Presidir um país de dimensões continentais exige preparo, vigília e, acima de tudo, uma espantosa capacidade de nada saber na hora certa. Não há superpotência administrativa que resista à conveniência de um apagão cognitivo: quando a caneta do Executivo de Lula assina medidas provisórias contra a sangria financeira popular a meros nove dias de uma votação, a explicação não repousa sobre a óbvia urgência das urnas, mas na súbita descoberta de um mundo exterior até então invisível aos olhos do poder. O líder petista, cercado por ministérios, relatórios técnicos e milhares de assessores, subitamente descobre a realidade como quem tropeça em um móvel no escuro da sala (ASSISTA AO VÍDEO AQUI).
Essa modéstia intelectual atinge contornos quase comoventes quando aplicada aos programas mais vitais de transferência de renda. Diante de perguntas incômodas sobre o reajuste do benefício social a apenas dezessete dias do primeiro turno, a linha de defesa de Lula volta a ser a mais pura desinformação: descobriu-se tardiamente que a correção não havia sido feita, e a benevolência orçamentária floresceu como um milagre do calendário cívico. Trata-se de uma proeza gerencial digna de estudo, em que a omissão administrativa é vendida como redenção espontânea, e a completa desatenção com a pauta mais sensível da própria plataforma eleitoral é exibida com o orgulho desarmado de quem acabou de acordar.
O método, contudo, brilha com intensidade incomparável quando confrontado com as próprias palavras registradas para a posteridade. Diante das massas e sob o calor inflamado do palanque, o discurso de Lula atinge notas trágicas ao clamar que nunca se pôde pôr os pés no famigerado apartamento litorâneo, arrancando suspiros de revolta e solidariedade da plateia engajada. Todavia, basta a mudança do cenário para o rigor sóbrio de um depoimento judicial gravado para que a memória se reconstitua com precisão cirúrgica: a visita ao imóvel de fato ocorreu em 2014, revelando que a distância entre a comoção pública e a realidade documental é apenas uma questão de conveniência de auditório.
O mesmo desapego memorial opera prodígios nas relações políticas, onde figuras influentes que frequentam os corredores do poder são solenemente rebaixadas à condição de completas desconhecidas por Lula ao primeiro sinal de tempestade. Na engrenagem dessa narrativa perpétua, a responsabilidade é sempre transferida para o abismo do desconhecido, consagrando a mais cômoda das teorias do poder: quem tudo comanda nada precisa monitorar, desde que consiga jurar, diante das câmeras, que jamais teve qualquer notícia do que ocorria sob o próprio teto.
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