O Paraguai enfrenta uma das mais graves crises políticas e financeiras de sua história recente. O presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio à repercussão do colapso do Ueno Bank, instituição financeira que teve suas operações submetidas à intervenção do Banco Central paraguaio. A crise deixou aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso às próprias contas, provocou manifestações populares e ampliou a pressão pela saída do chefe do Executivo. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, Peña afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.
O episódio ganhou dimensão política após questionamentos sobre as relações anteriores de Peña com o Grupo Vázquez, controlador do banco. O presidente manteve participação societária no grupo até março de 2025. Parlamentares passaram a apontar possíveis conflitos de interesses, favorecimento empresarial e irregularidades envolvendo recursos públicos e previdenciários. As acusações ainda dependem de apuração, e Peña negou qualquer irregularidade. A situação se agravou depois que o Banco Central identificou problemas de solvência, operações de crédito com empresas relacionadas aos controladores e falhas na documentação de determinadas transações financeiras.
A instituição administrava aproximadamente US$ 800 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos vinculados ao Instituto de Previdência Social do Paraguai. A intervenção provocou o bloqueio temporário de contas, dificuldades para pagamentos e protestos de clientes e trabalhadores. O fundador do grupo, Miguel Vázquez, o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e outros executivos estão entre os investigados. Oito dirigentes foram detidos, enquanto o Ministério Público também apresentou acusações contra 27 pessoas ligadas à instituição e a empresas associadas. A crise ainda provocou a saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, cuja nomeação também passou a ser questionada no debate político.
A renúncia de Peña ocorreu enquanto a Câmara dos Deputados discutia o processo de impeachment e, pouco depois, os parlamentares aprovaram a abertura do julgamento político por 78 votos a zero. A decisão foi encaminhada ao Senado, responsável pela etapa seguinte do procedimento. O vice-presidente Pedro Alliana aparece como sucessor constitucional para concluir o mandato, previsto até agosto de 2028, mas a formalização da transição depende dos trâmites institucionais. O caso tem repercussão internacional e levanta questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro, a proteção de recursos públicos e a independência das instituições reguladoras. Mais do que a saída de um presidente, a crise coloca em evidência os desafios do Paraguai para recuperar a confiança dos depositantes e preservar a credibilidade de sua economia.
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