É quase comovente a preocupação repentina de determinadas lideranças com a pacificação nacional. Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal, aparece no centro de articulações que envolvem anistia, indulto e o futuro da relação entre Congresso e Supremo Tribunal Federal. O problema é que pacificação não pode virar palavra elegante para encobrir conveniências políticas. Quando a possibilidade de aliviar consequências jurídicas entra na mesma conversa que a disputa pelo comando do Senado, a sociedade tem todo o direito de exigir transparência. Não existe comprovação de um acordo para trocar apoio político por benefícios judiciais, mas a simples circulação dessa hipótese, sem esclarecimentos suficientemente objetivos, já expõe o tamanho da desconfiança que contamina Brasília. E, enquanto os caciques conversam, a credibilidade das instituições continua pagando o preço.
Flávio Bolsonaro, senador da República, também está no centro de um episódio que exige rigor e responsabilidade. Medidas cautelares autorizadas pelo Supremo, incluindo apreensão de passaportes e restrição de saída do país, integram uma investigação sobre sua saída do Brasil. A existência dessas medidas não autoriza condenações antecipadas, mas tampouco permite transformar questionamentos judiciais em perseguição política por conveniência. A situação ganha dimensão ainda mais delicada quando é colocada no contexto das articulações envolvendo Davi Alcolumbre e setores da oposição. O PL, derrotado na disputa presidencial, precisa reorganizar sua estratégia e demonstrar que sabe fazer oposição para além do barulho institucional. Enquanto isso, Lula, presidente da República, terá de enfrentar uma realidade incômoda. Vencer a eleição não significa controlar o Congresso, muito menos receber autorização para administrar irresponsavelmente as contas públicas. O discurso político pode até sobreviver de slogans. O orçamento, não.
E existe uma conta que ninguém em Brasília parece especialmente ansioso para explicar ao cidadão. A reforma tributária promete simplificação, mas a estimativa de 11,3468% para a CBS, somada à futura alíquota do IBS, reacende o debate sobre uma tributação combinada que poderá ultrapassar 27%. Não se trata de afirmar que todos pagarão exatamente esse percentual, porque existem regimes diferenciados e mecanismos de compensação. Trata-se de cobrar transparência sobre o impacto real da reforma. Simplificar impostos não significa automaticamente reduzir impostos. O contribuinte não pode ser tratado como um caixa eletrônico de um Estado incapaz de enfrentar suas próprias escolhas orçamentárias. Déficit, dívida, juros e despesas públicas não desaparecem com discursos otimistas. E qualquer governo que pretenda transferir o custo de sua falta de disciplina fiscal para quem produz, trabalha e consome precisa explicar, sem propaganda e sem malabarismo, por que a população deveria aceitar mais essa conta.
Nesse tabuleiro, Wladimir Garotinho, ex-prefeito de Campos dos Goytacazes e deputado federal eleito pelo PL do Rio de Janeiro, tem uma oportunidade e uma responsabilidade que não podem ser confundidas com protagonismo de ocasião. A chegada a Brasília amplia seu espaço político, mas também aumenta a cobrança. Não basta participar da guerra entre governo, oposição e Supremo, reproduzir discursos nacionais ou ocupar espaço em articulações partidárias. Campos dos Goytacazes e o Norte Fluminense precisam de representação capaz de transformar influência em investimentos, articulação em conquistas e mandato em resultados verificáveis. Wladimir pode crescer politicamente, mas precisará demonstrar que sua atuação nacional serve a algo maior do que a sobrevivência dos grupos políticos. No fim, a fotografia dos poderosos reunidos não paga a conta de luz, não melhora a saúde pública e não resolve os problemas de quem trabalha. Brasília pode continuar chamando seus acordos de pacificação, suas disputas de estratégia e seus aumentos de modernização tributária. Para o cidadão, porém, a realidade é menos sofisticada. O poder negocia, o Estado cobra e a população continua esperando.
Notícias do site: Campos 360 News









