A decisão judicial que afastou José Graciosa do Tribunal de Contas do Estado não apenas abriu uma vaga institucional. Escancarou mais uma vez como estruturas criadas para fiscalizar o poder são convertidas em instrumentos de acomodação política. A cadeira no TCE passou rapidamente de órgão técnico para prêmio disputado nos bastidores, longe de qualquer debate público consistente ou compromisso com critérios republicanos.
Nos bastidores do Palácio Guanabara e da Assembleia Legislativa, o desenho é claro. Marcelo Delaroli surge como favorito à vaga vitalícia, enquanto Douglas Ruas ganha espaço para a sucessão partidária. Altineu Cortes aparece como o fiador do acordo e a Alerj, como de costume, tende a cumprir o roteiro sem maiores resistências. Tudo parece funcionar com a previsibilidade de um sistema que já não se constrange em tratar cargos de controle como peças de xadrez político.
O governo comemora a chamada saída elegante. Evita escolher entre aliados, preserva a coesão do grupo e empurra para o TCE um conflito que deveria ser resolvido à luz do interesse público. O problema é que essa elegância institucional cobra um preço alto da sociedade, que vê órgãos de fiscalização serem capturados por lógicas de conveniência e autoproteção.
A narrativa oficial tenta vender o arranjo como solução técnica, mas o histórico recente desmente qualquer ingenuidade. Não se trata de mérito, nem de capacidade comprovada para zelar pelo dinheiro público. Trata-se de uma negociação de poder, viabilizada pela fragilidade dos mecanismos de transparência e pelo silêncio conveniente das instituições que deveriam questionar o processo.
A Assembleia Legislativa surge novamente como peça passiva de um jogo já decidido. A previsão de aprovação tranquila expõe o esvaziamento do debate parlamentar e reforça a percepção de que o Legislativo atua mais como carimbador de acordos do Executivo do que como instância crítica e representativa da população fluminense.
O episódio revela um padrão que se repete. Vagas estratégicas são usadas para acomodar interesses políticos enquanto problemas reais do Estado seguem sem solução. A mensagem que fica é clara. O sistema continua funcionando para poucos, enquanto a sociedade assiste, mais uma vez, à naturalização de práticas que corroem a confiança nas instituições públicas.
Notícias do site: Campos 360 News









