A encenação de virtude institucional do país desmorona sempre no exato momento em que alguém aperta o botão de gravar. O banqueiro Daniel Vorcaro, encarcerado em Brasília após a derrocada dos seus negócios no Banco Master, desfila com espantosa naturalidade uma rotina de negociações subterrâneas que envolvem nomes graduados do Planalto, dirigentes sindicais e tesoureiros partidários. Em gravações e relatos aos investigadores, o dinheiro da previdência de carteiros, petroleiros e servidores do Banco do Brasil nunca é visto como poupança de trabalhadores, mas como mera matéria-prima para alimentar propinas de dez por cento, adiantamentos escusos e caprichos de vaidade de líderes políticos (ASSISTA AO VÍDEO AQUI).
A rota do achaque descrita por Vorcaro é milimétrica e desavergonhada. Seu sócio Augusto Lima cuidava de despachar repasses diretamente a Paulo Okamotto, homem forte do Instituto Lula em São Paulo, enquanto o histórico operador do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, cobrava pedágio para destrancar cofres da Petros, da Previ e do Postalis. O roteiro atingiu o ápice do descaramento na exigência de cerca de trinta milhões de reais em notas físicas para custear a produção internacional de um filme hagiográfico sobre o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dirigido por Oliver Stone.
No submundo dos negócios com o Estado, até a corrupção ganha manual de etiqueta. Questionado sobre os métodos de financiamento político, o banqueiro teve o despudor de admitir que a fatura do filme lulista correu por fora, ilegal e deliberadamente suja, enquanto a bajulação análoga dedicada ao clã de Jair Bolsonaro no filme Dark Horse seguiu o protocolo limpo do patrocínio oficial articulado pelo senador Flávio Bolsonaro. É o retrato acabado da elite parasita nacional, que financia a esquerda no submundo das malas de dinheiro e a direita com contratos de marketing, sempre com a mesma mão e o mesmo propósito de assaltar o patrimônio coletivo.
O ministro Alexandre Padilha e seu então braço direito Olavo Noleto completavam a engrenagem do balcão de negócios, segundo os depoimentos. Em jantares reservados e encontros de bastidor em Brasília, operadores ministeriais garantiam a inclusão do Master na lista de instituições autorizadas a drenar bilhões dos fundos públicos mediante cobrança de comissões milionárias e pixoteios de meio milhão de reais cobrados em mensagens de texto. Quando técnicos de carreira da Caixa Econômica Federal ousaram emitir pareceres contrários à transação temerária de meio bilhão, a resposta da cúpula foi sumária e punitiva: os servidores foram afastados para que a máquina de negócios não parasse.
Negativas lacônicas.
O presidente da República jura solenemente que nada pediu, Padilha finge ignorar quem jantava à sua mesa e a Procuradoria-Geral da República engaveta as delações alegando falta de notas fiscais do crime. Trata-se de um espetáculo grotesco de cinismo compartilhado, onde o poder se alimenta do futuro de milhões de aposentados para produzir propaganda política e enriquecer quadrilhas de colarinho branco, enquanto os envolvidos distribuem notas oficiais de indignação calculada para insultar a inteligência de um país inteiro.
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